O Despertar da Antecipação: Do Relatório à Prática
A história do Foresight nas Nações Unidas não é nova, mas sua institucionalização é recente. O verdadeiro ponto de inflexão ocorreu em setembro de 2021, com o lançamento do relatório “Our Common Agenda” pelo Secretário-Geral António Guterres.
Breakdown or Breakthrough?
O relatório surgiu como uma resposta direta às falhas sistêmicas expostas pela pandemia de COVID-19. Guterres apresentou um diagnóstico severo: a humanidade enfrenta uma escolha entre o colapso (breakdown) ou a retomada (breakthrough).
Neste contexto, o Foresight deixou de ser um “exercício acadêmico sobre o futuro” para se tornar uma ferramenta de sobrevivência política. O relatório propôs:
- A criação de um Relatório de Foresight Estratégico e Riscos Globais a cada 5 anos.
- O foco na Justiça Intergeracional, tratando os 11 bilhões de pessoas que ainda nascerão neste século como stakeholders legítimos.
O Nascimento do UN Futures Lab (2023)
Como braço operacional dessa visão, foi estabelecido em 2023 o UN Futures Lab. Ele não é apenas um “departamento”, mas um hub global (com sedes em Nova York, Genebra, Nairóbi e Helsinque) desenhado para:
- Democratizar o Foresight: Levar ferramentas de pensamento de futuro para todas as agências e Estados-membros.
- Capacitação (Futures Literacy): Transformar a burocracia da ONU em uma organização “fit for the future” através do conceito de UN 2.0.
O Futures Lab é o motor do que a ONU chama de “Quinteto de Mudança” (Data, Digital, Innovation, Foresight, and Behavioral Science). Isso mostra que o Foresight não anda sozinho; ele é alimentado por dados e ciência comportamental.
UN Strategic Foresight Guide
O UN Strategic Foresight Guide, publicado em dezembro de 2023 pelo UN Futures Lab, é o guia prático que materializa a visão de Guterres. Ele serve para transformar a teoria da “Nossa Agenda Comum” em competência técnica para as equipes da ONU em todo o mundo.
O guia define o foresight como um esforço coletivo para responder a uma pergunta central: “Como criar um impacto duradouro em um contexto de incerteza?”. Ele deixa claro que o futuro não é uma simples extrapolação do passado e que o planejamento tradicional de cinco anos já não é suficiente para lidar com mudanças sistêmicas.
O framework técnico do guia organiza-se em três áreas fundamentais de aplicação:
- Dar sentido à mudança (Make sense of change)
Antes de planejar, é preciso observar. O guia propõe ferramentas para identificar sinais de mudança que podem ser pequenos hoje, mas gigantes amanhã.
- Horizon Scanning: Monitoramento de mudanças emergentes que ainda não aparecem em estatísticas oficiais.
- Futures Wheel: Exploração das consequências diretas e indiretas de uma tendência ou evento.
- Imaginar futuros possíveis (Imagine possible futures)
O objetivo aqui é desafiar a ideia de um “futuro único” e expandir o campo de visão.
- Desenvolvimento de Cenários: Construção de narrativas diferentes para identificar riscos e oportunidades que surgem da interação entre tendências.
- Causal Layered Analysis (CLA): Uma metodologia profunda para explorar as camadas de mudança necessárias para uma transformação real, indo além da superfície.
- Entrar em ação (Take action)
Foresight só tem valor se desencadear decisões no presente.
- Backcasting: Em vez de projetar o presente para frente, esta técnica começa no futuro desejado e trabalha de trás para frente para definir o que precisa ser feito hoje.
- Wind Tunnel Testing (Teste de Estresse): Um processo para testar a resiliência de políticas atuais frente a diferentes cenários futuros.
O guia enfatiza que o Foresight não é apenas sobre ferramentas, mas sobre uma mudança de mentalidade, encorajando as lideranças a:
- Olhar para possibilidades, não apenas probabilidades.
- Sair da reatividade do “resolver problemas” para o poder da imaginação.
- Incluir “vozes incomuns” (jovens, comunidades indígenas e setores periféricos) para evitar câmaras de eco e pontos cegos.
“Gap de Relevância”: Por que o Foresight é Vital?
Para entender a urgência do UN Futures Lab, é preciso visualizar um fenômeno que o estrategista Scott Brinker descreveu originalmente para a tecnologia, mas que se aplica perfeitamente à governança global: o Gap de Relevância.
A Lei de Martec e o Contexto Global
A premissa é simples, mas brutal: a tecnologia e os desafios globais (como mudanças climáticas e IA) evoluem em uma progressão exponencial, enquanto as organizações (incluindo governos e a própria ONU) mudam em um ritmo logarítmico (muito mais lento).
- A Mudança Exponencial: Crises e inovações surgem e se escalam em meses, não décadas.
- A Mudança Logarítmica: A burocracia, a mudança de normas sociais e os ciclos de planejamento de 5 anos são lentos por natureza.
Onde o Foresight entra?
O “Gap” entre essas duas curvas é onde as instituições se tornam irrelevantes ou falham em proteger a sociedade. O guia da ONU reconhece que o futuro não é mais uma extrapolação do passado. Para fechar esse gap, o UN Strategic Foresight Guide propõe três posturas:
- Controle (1-3 anos): Usar o foresight para antecipar riscos imediatos e buscar estabilidade.
- Crescimento (2-10 anos): Identificar oportunidades para acelerar o impacto dentro dos sistemas atuais.
- Transformação (5-20 anos): Onde realmente combatemos o gap de Brinker, mudando a direção dos sistemas socioeconômicos antes que o colapso ocorra.
Decisões “No-Regret” (Sem Arrependimento)
Como solução para essa defasagem rítmica, o guia sugere investimentos em decisões de baixo arrependimento. São ações que geram benefícios independentemente de qual cenário futuro se concretize, como o fortalecimento de redes digitais e capacidades humanas. Isso permite que a organização seja ágil o suficiente para “surfar” a curva exponencial, em vez de ser atropelada por ela.

Conclusão: O Futuro como uma Escolha, não um Destino
Falar de Foresight nas Nações Unidas pode parecer, à primeira vista, um tema distante da nossa realidade. Mas, na verdade, é o oposto. O Foresight é, essencialmente, a capacidade de recuperar o controle sobre o amanhã. Em vez de apenas reagirmos às crises — sejam elas climáticas, econômicas ou sociais —, aprendemos a antecipá-las e, mais importante, a moldar o futuro que desejamos.
O grande benefício dessa abordagem não é “adivinhar o futuro”, mas sim preparar as pessoas. Quando aplicamos as ferramentas do UN Strategic Foresight Guide, como o Backcasting, paramos de olhar para o que é provável e passamos a agir em direção ao que é necessário. Isso gera segurança para investir, resiliência para enfrentar imprevistos e uma visão clara de propósito para as instituições.
Saiba mais sobre Foresight para instituições privadas e públicas na W Futurismo ou no contato@wfuturismo.com
Autora: Delma Moraes, Foresight Practitioner
Curadoria: Jaqueline Weigel, Futurista Global
