09/02/2026 – Autora: Delma Moraes, Foresight Practitioner e curadoria de conteúdo W Futurismo | Curadoria: Jaqueline Weigel, Futurista Global
Vivemos em uma era de mudanças sem precedentes. Como bem destacou Angel Gurría, ex-Secretário-Geral da OCDE, embora não possamos prever o futuro, temos a obrigação de nos preparar para ele. Em um mundo onde desenvolvimentos locais tornam-se globais instantaneamente, a passividade não é mais uma opção para governos ou organizações. É neste contexto que o Foresight Estratégico surge não como um exercício de adivinhação, mas como uma ferramenta vital de resiliência e adaptação.
O Panorama Global do Foresight nas Organizações
O interesse pelo uso do Foresight Estratégico na formulação de políticas públicas tem crescido de forma acelerada em todo o mundo. Governos e organizações internacionais reconhecem que, em tempos de mudanças rápidas e incertezas elevadas, investimentos para antecipar o futuro são fundamentais para a resiliência. Atualmente, comunidades como a Government Foresight Community da OCDE reúnem profissionais de mais de 38 países para trocar experiências e fortalecer práticas de antecipação. No setor privado, o Foresight transcende a análise de riscos tradicional, atuando como um motor de vantagem competitiva e inovação disruptiva.
A OCDE e sua Jornada com o Futuro
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é uma instituição internacional dedicada a construir “políticas melhores para uma vida melhor”. Atuando como um pilar de aprendizado mútuo e colaboração global, a OCDE utiliza o Foresight para ajudar a comunidade global a navegar tanto pelos perigos quanto pelas promessas do futuro.
A jornada da organização com o tema não é recente. Desde as décadas de 1960 e 1970, a OCDE já realizava esforços para explorar cenários alternativos para a economia e o meio ambiente. Em 1990, criou o Programa de Futuros Internacionais e, atualmente, conta com uma Unidade de Foresight Estratégico dedicada a integrar essa mentalidade em todas as áreas políticas, desde educação e emprego até ciência e tecnologia.
Os Drivers de Mudança Global
O futuro está sendo moldado por forças imprevisíveis que podem transformar profundamente as próximas décadas. O relatório Global Scenarios 2035 da OCDE, identifica drivers cruciais:
- Eficácia e alianças entre estados: Incerteza sobre o equilíbrio entre abordagens lideradas pelo estado versus o mercado, e a ascensão econômica do Oriente.
- Riscos comuns à humanidade: O aumento de eventos disruptivos, como o colapso da biodiversidade e riscos existenciais gerados por tecnologias sem salvaguardas.
- Mudanças em valores: Novas formas de medir o bem-estar que transcendem o PIB.
- Influência de atores não-estatais: O poder acumulado por empresas de tecnologia e a força de movimentos sociais em rede.
- Interconectividade digital e gestão de recursos: A tensão entre soberania digital e plataformas globais, além da transição para uma bioeconomia circular.
Três Cenários para 2035
Para informar as reflexões sobre o futuro da colaboração global, a OCDE desenvolveu três cenários disruptivos que desafiam nossas premissas atuais.
- Multitrack World (Mundo em Trilhos Múltiplos)
Neste cenário, a humanidade se fragmenta em vários clusters paralelos, cada um operando dentro de sua própria infraestrutura de dados e ecossistema digital.
- Dinâmica: A cooperação internacional diminui em favor de laços econômicos e sociais profundos dentro de cada cluster.
- Implicações: Ideias sobre o que constitui “melhores políticas” variam significativamente de acordo com o sistema de valores de cada bloco. Empresas e organizações da sociedade civil têm dificuldade em operar em múltiplos clusters simultaneamente.
- Virtual Worlds (Mundos Virtuais)
Aqui, a maioria das interações humanas — seja para lazer, negócios ou serviços — ocorre em uma plataforma virtual interconectada e imersiva.
- Dinâmica: A realidade virtual (VR) estimula os sentidos ao ponto de as experiências digitais serem equivalentes ou superiores às físicas. Surge uma pressão popular massiva por interoperabilidade global entre plataformas.
- Implicações: A dependência da geografia física diminui para a maioria dos empregos, mas surgem dilemas éticos complexos sobre a propriedade de dados comportamentais e a segurança contra manipulação digital.
- Vulnerable World (Mundo Vulnerável)
Este cenário apresenta um mundo onde a inovação tecnológica trouxe avanços na descarbonização, mas também gerou riscos existenciais críticos que exigem colaboração global para serem mitigados.
- Dinâmica: Tecnologias como inteligência artificial, computação quântica, biologia sintética e exploração espacial avançada criam vulnerabilidades que podem ser catastróficas se não houver salvaguardas globais. Pouco foi feito para garantir uma abordagem centrada no ser humano.
- Implicações: A governança global torna-se um campo de batalha contra ameaças como pandemias planejadas ou o colapso de sistemas de comunicação orbital (Síndrome de Kessler). A cooperação parcial não é mais suficiente; o sistema exige colaboração global para salvar os interesses comuns vitais da humanidade.
Considerações Finais
Os cenários apresentados ilustram uma pequena seleção dos complexos desafios futuros que a comunidade internacional poderá enfrentar em breve. Abordar essas e outras questões no horizonte exigirá inovação sem precedentes, para a resolução colaborativa de problemas.
O Foresight Estratégico é uma ferramenta essencial para lidar com a incerteza e garantir que organizações como a OCDE continuem a prover “políticas melhores para uma vida melhor” a longo prazo. Ao explorar cenários como o de um mundo fragmentado, virtualizado ou existencialmente vulnerável, somos equipados para imaginar e concretizar futuros mais desejáveis.
Para profissionais e líderes, a lição é clara: a resiliência não nasce da certeza, mas da capacidade de abraçar a incerteza e agir com agilidade frente ao desconhecido.
Saiba mais sobre Foresight para instituições privadas e públicas na W Futurismo ou no contato@wfuturismo.com
Referência: OECD (2021), Global Scenarios 2035: Exploring Implications for the Future of Global Collaboration and the OECD, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/df7ebc33-en.
