Jonas Júnior, gestor de futuros W Futurismo – curadoria Jaqueline Weigel, futurista global
O futuro como direção não como aposta!
De tempos em tempos reaparece uma frase pronta: “A China já está em 2050.” Ela funciona como manchete, mas não explica o fenômeno. Porque a China não “vive no futuro”. Ela faz algo mais interessante — e mais difícil: ela organiza o presente para produzir determinados futuros.
É isso que cria a sensação de aceleração em comparação a outros países. Não existe salto mágico no tempo. O que existe é continuidade estratégica, método e coordenação em escala.
Na China, futuro não é um exercício de imaginação. É uma direção de Estado.
Os Planos Quinquenais mostram isso com clareza: ciclos de 5 anos que alinham prioridades nacionais e conectam governo, empresas, universidades e sistema financeiro. Esses ciclos se encadeiam com objetivos de longo alcance, como metas para 2035 e, em discursos estratégicos, para 2050.
O objetivo não é “acertar previsões”, é reduzir improvisos, aumentar capacidade de execução e sustentar uma trajetória.
Em termos de Estudos de Futuros, isso é decisivo: quando uma sociedade trata o futuro como disciplina, ela muda o tipo de decisão que toma no presente.
Onde o Foresight realmente está acoplado?
A pergunta aqui não é “a China faz foresight?” e sim em quais sistemas o Foresight está conectado?
1) Ciência e tecnologia como arquitetura de longo prazo
A China tem histórico de planejamento estendido em C&T — como o Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (2006–2020), estruturado pelo Conselho de Estado, com áreas prioritárias e coordenação de esforços de inovação.
Foresight, nesse caso, não é relatório bonito. É arquitetura de capacidades nacionais.
2) Exercícios explícitos de Foresight com método
Há iniciativas que citam metodologias como Delphi, consultas estruturadas e rodadas técnicas para estratégia tecnológica rumo a 2035 — associadas a instituições como a Chinese Academy of Engineering (CAE) e movimentos conectados à engenharia e ciência aplicada.
Ou seja: existe método, iteração e escolha. E principalmente: um sistema que transforma consulta em política e política em execução.
3) Padronização como infraestrutura invisível do futuro
Pouca coisa é tão “futuro” quanto definir padrões, porque padrões viram o que ninguém vê , mas todo mundo usa.
A China publicou a National Standardization Development Outline, com metas até 2025 e 2035, conectando padronização à produtividade, inovação e vida social. E o debate internacional sobre “China Standards 2035” revela o ponto central:
Governar padrões é governar infraestrutura técnica, governar infraestrutura técnica é governar futuros preferidos.
IA não como tendência mas como infraestrutura
A Inteligência Artificial é o exemplo mais claro dessa lógica. Em vez de tratar a IA como “trend” para acompanhar ou explorar pontualmente, a China passou a tratá-la como infraestrutura estratégica, comparável à energia e telecomunicações.
Isso muda tudo.
Quando algo vira infraestrutura, ele deixa de ser projeto, vira base, vira caminho preferencial, vira plataforma para o restante da economia.
Esse é um movimento típico de foresight aplicado: olhar além da tecnologia e decidir, desde cedo, qual papel ela deve cumprir no futuro desejado.
Por que isso soa como “o futuro”?
A sensação de avanço não vem de um gadget específico. Ela vem de algo menos glamouroso e mais poderoso: coerência entre visão de longo prazo, planejamento público, investimento, academia e execução.
Essa coerência é mantida por décadas, com ajustes e correções de rota.
O futuro não é um evento distante é algo que precisa ser ensaiado continuamente.
Isso não elimina dilemas éticos, tensões geopolíticas ou riscos de controle.
Ao contrário: um futuro altamente dirigido pode produzir potência e também vulnerabilidades.
Mas para quem trabalha com antecipação estratégica, fica evidente um princípio: #foresight não é imaginar cenários, é sustentar decisões no presente que mantêm o futuro aberto — mas orientado.
Que tipo de futuro nós estamos tentando construir, e com que método?
Porque o aprendizado aqui não é copiar modelo, é aprender a lógica:
- Tratar o futuro como disciplina
- Conectar visão de longo prazo a decisões concretas
- Construir capacidade institucional para múltiplos caminhos possíveis
- E lembrar que antecipar não é prever — é preparar e escolher melhor
O futuro não chega, ele é imaginado e pode ser influenciado por quem se antecipa.
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