Como a China passou a governar o futuro

por | jan 18, 2026 | Cenários, Estudos de Futuros, Futurismo, inovação, liderança, Strategic Foresight, Tendências

Jonas Júnior, gestor de futuros W Futurismo – curadoria Jaqueline Weigel, futurista global

O futuro como direção não como aposta!

De tempos em tempos reaparece uma frase pronta: “A China já está em 2050.” Ela funciona como manchete, mas não explica o fenômeno. Porque a China não “vive no futuro”. Ela faz algo mais interessante — e mais difícil: ela organiza o presente para produzir determinados futuros.

É isso que cria a sensação de aceleração em comparação a outros países. Não existe salto mágico no tempo. O que existe é continuidade estratégica, método e coordenação em escala.

Na China, futuro não é um exercício de imaginação. É uma direção de Estado.

Os Planos Quinquenais mostram isso com clareza: ciclos de 5 anos que alinham prioridades nacionais e conectam governo, empresas, universidades e sistema financeiro. Esses ciclos se encadeiam com objetivos de longo alcance, como metas para 2035 e, em discursos estratégicos, para 2050.

O objetivo não é “acertar previsões”, é reduzir improvisos, aumentar capacidade de execução e sustentar uma trajetória.

Em termos de Estudos de Futuros, isso é decisivo: quando uma sociedade trata o futuro como disciplina, ela muda o tipo de decisão que toma no presente.

Onde o Foresight realmente está acoplado?

A pergunta aqui não é “a China faz foresight?e sim em quais sistemas o Foresight está conectado?

1) Ciência e tecnologia como arquitetura de longo prazo

A China tem histórico de planejamento estendido em C&T — como o Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (2006–2020), estruturado pelo Conselho de Estado, com áreas prioritárias e coordenação de esforços de inovação.

Foresight, nesse caso, não é relatório bonito. É arquitetura de capacidades nacionais.

2) Exercícios explícitos de Foresight com método

Há iniciativas que citam metodologias como Delphi, consultas estruturadas e rodadas técnicas para estratégia tecnológica rumo a 2035 — associadas a instituições como a Chinese Academy of Engineering (CAE) e movimentos conectados à engenharia e ciência aplicada.

Ou seja: existe método, iteração e escolha. E principalmente: um sistema que transforma consulta em política e política em execução.

3) Padronização como infraestrutura invisível do futuro

Pouca coisa é tão “futuro” quanto definir padrões, porque padrões viram o que ninguém vê , mas todo mundo usa.

A China publicou a National Standardization Development Outline, com metas até 2025 e 2035, conectando padronização à produtividade, inovação e vida social. E o debate internacional sobre “China Standards 2035” revela o ponto central:

Governar padrões é governar infraestrutura técnica, governar infraestrutura técnica é governar futuros preferidos.

IA não como tendência mas como infraestrutura

A Inteligência Artificial é o exemplo mais claro dessa lógica. Em vez de tratar a IA como “trend” para acompanhar ou explorar pontualmente, a China passou a tratá-la como infraestrutura estratégica, comparável à energia e telecomunicações.

Isso muda tudo.

Quando algo vira infraestrutura, ele deixa de ser projeto, vira base, vira caminho preferencial, vira plataforma para o restante da economia.

Esse é um movimento típico de foresight aplicado: olhar além da tecnologia e decidir, desde cedo, qual papel ela deve cumprir no futuro desejado.

Por que isso soa como “o futuro”?

A sensação de avanço não vem de um gadget específico. Ela vem de algo menos glamouroso e mais poderoso: coerência entre visão de longo prazo, planejamento público, investimento, academia e execução.

Essa coerência é mantida por décadas, com ajustes e correções de rota.
O futuro não é um evento distante é algo que precisa ser ensaiado continuamente.

Isso não elimina dilemas éticos, tensões geopolíticas ou riscos de controle.
Ao contrário: um futuro altamente dirigido pode produzir potência e também vulnerabilidades.

Mas para quem trabalha com antecipação estratégica, fica evidente um princípio: #foresight não é imaginar cenários, é sustentar decisões no presente que mantêm o futuro aberto — mas orientado.

Que tipo de futuro nós estamos tentando construir, e com que método?

Porque o aprendizado aqui não é copiar modelo, é aprender a lógica:

  • Tratar o futuro como disciplina
  • Conectar visão de longo prazo a decisões concretas
  • Construir capacidade institucional para múltiplos caminhos possíveis
  • E lembrar que antecipar não é prever — é preparar e escolher melhor

O futuro não chega, ele é imaginado e pode ser influenciado por quem se antecipa.

W Futurismo, Foresight e Futures Studies Brasil – palestras, consultoria e formação em Foresight Estratégico

Traduzir »