Foresight na ONU – antecipação ganhando relevância no Século 21

por | jan 14, 2026 | Cenários, Estudos de Futuros, Futurismo, inovação, liderança, Strategic Foresight, Tendências

O Despertar da Antecipação: Do Relatório à Prática

A história do Foresight nas Nações Unidas não é nova, mas sua institucionalização é recente. O verdadeiro ponto de inflexão ocorreu em setembro de 2021, com o lançamento do relatório “Our Common Agenda” pelo Secretário-Geral António Guterres.

Breakdown or Breakthrough?

O relatório surgiu como uma resposta direta às falhas sistêmicas expostas pela pandemia de COVID-19. Guterres apresentou um diagnóstico severo: a humanidade enfrenta uma escolha entre o colapso (breakdown) ou a retomada (breakthrough).

Neste contexto, o Foresight deixou de ser um “exercício acadêmico sobre o futuro” para se tornar uma ferramenta de sobrevivência política. O relatório propôs:

  • A criação de um Relatório de Foresight Estratégico e Riscos Globais a cada 5 anos.
  • O foco na Justiça Intergeracional, tratando os 11 bilhões de pessoas que ainda nascerão neste século como stakeholders legítimos.

O Nascimento do UN Futures Lab (2023)

Como braço operacional dessa visão, foi estabelecido em 2023 o UN Futures Lab. Ele não é apenas um “departamento”, mas um hub global (com sedes em Nova York, Genebra, Nairóbi e Helsinque) desenhado para:

  • Democratizar o Foresight: Levar ferramentas de pensamento de futuro para todas as agências e Estados-membros.
  • Capacitação (Futures Literacy): Transformar a burocracia da ONU em uma organização “fit for the future” através do conceito de UN 2.0.

O Futures Lab é o motor do que a ONU chama de “Quinteto de Mudança” (Data, Digital, Innovation, Foresight, and Behavioral Science). Isso mostra que o Foresight não anda sozinho; ele é alimentado por dados e ciência comportamental.

UN Strategic Foresight Guide

O UN Strategic Foresight Guide, publicado em dezembro de 2023 pelo UN Futures Lab, é o guia prático que materializa a visão de Guterres. Ele serve para transformar a teoria da “Nossa Agenda Comum” em competência técnica para as equipes da ONU em todo o mundo.

O guia define o foresight como um esforço coletivo para responder a uma pergunta central: “Como criar um impacto duradouro em um contexto de incerteza?”. Ele deixa claro que o futuro não é uma simples extrapolação do passado e que o planejamento tradicional de cinco anos já não é suficiente para lidar com mudanças sistêmicas.

O framework técnico do guia organiza-se em três áreas fundamentais de aplicação:

  1. Dar sentido à mudança (Make sense of change)

Antes de planejar, é preciso observar. O guia propõe ferramentas para identificar sinais de mudança que podem ser pequenos hoje, mas gigantes amanhã.

  • Horizon Scanning: Monitoramento de mudanças emergentes que ainda não aparecem em estatísticas oficiais.
  • Futures Wheel: Exploração das consequências diretas e indiretas de uma tendência ou evento.
  1. Imaginar futuros possíveis (Imagine possible futures)

O objetivo aqui é desafiar a ideia de um “futuro único” e expandir o campo de visão.

  • Desenvolvimento de Cenários: Construção de narrativas diferentes para identificar riscos e oportunidades que surgem da interação entre tendências.
  • Causal Layered Analysis (CLA): Uma metodologia profunda para explorar as camadas de mudança necessárias para uma transformação real, indo além da superfície.
  1. Entrar em ação (Take action)

Foresight só tem valor se desencadear decisões no presente.

  • Backcasting: Em vez de projetar o presente para frente, esta técnica começa no futuro desejado e trabalha de trás para frente para definir o que precisa ser feito hoje.
  • Wind Tunnel Testing (Teste de Estresse): Um processo para testar a resiliência de políticas atuais frente a diferentes cenários futuros.

O guia enfatiza que o Foresight não é apenas sobre ferramentas, mas sobre uma mudança de mentalidade, encorajando as lideranças a:

  • Olhar para possibilidades, não apenas probabilidades.
  • Sair da reatividade do “resolver problemas” para o poder da imaginação.
  • Incluir “vozes incomuns” (jovens, comunidades indígenas e setores periféricos) para evitar câmaras de eco e pontos cegos.

“Gap de Relevância”: Por que o Foresight é Vital?

Para entender a urgência do UN Futures Lab, é preciso visualizar um fenômeno que o estrategista Scott Brinker descreveu originalmente para a tecnologia, mas que se aplica perfeitamente à governança global: o Gap de Relevância.

A Lei de Martec e o Contexto Global

A premissa é simples, mas brutal: a tecnologia e os desafios globais (como mudanças climáticas e IA) evoluem em uma progressão exponencial, enquanto as organizações (incluindo governos e a própria ONU) mudam em um ritmo logarítmico (muito mais lento).

  • A Mudança Exponencial: Crises e inovações surgem e se escalam em meses, não décadas.
  • A Mudança Logarítmica: A burocracia, a mudança de normas sociais e os ciclos de planejamento de 5 anos são lentos por natureza.

Onde o Foresight entra?

O “Gap” entre essas duas curvas é onde as instituições se tornam irrelevantes ou falham em proteger a sociedade. O guia da ONU reconhece que o futuro não é mais uma extrapolação do passado. Para fechar esse gap, o UN Strategic Foresight Guide propõe três posturas:

  • Controle (1-3 anos): Usar o foresight para antecipar riscos imediatos e buscar estabilidade.
  • Crescimento (2-10 anos): Identificar oportunidades para acelerar o impacto dentro dos sistemas atuais.
  • Transformação (5-20 anos): Onde realmente combatemos o gap de Brinker, mudando a direção dos sistemas socioeconômicos antes que o colapso ocorra.

Decisões “No-Regret” (Sem Arrependimento)

Como solução para essa defasagem rítmica, o guia sugere investimentos em decisões de baixo arrependimento. São ações que geram benefícios independentemente de qual cenário futuro se concretize, como o fortalecimento de redes digitais e capacidades humanas. Isso permite que a organização seja ágil o suficiente para “surfar” a curva exponencial, em vez de ser atropelada por ela.

Conclusão: O Futuro como uma Escolha, não um Destino

Falar de Foresight nas Nações Unidas pode parecer, à primeira vista, um tema distante da nossa realidade. Mas, na verdade, é o oposto. O Foresight é, essencialmente, a capacidade de recuperar o controle sobre o amanhã. Em vez de apenas reagirmos às crises — sejam elas climáticas, econômicas ou sociais —, aprendemos a antecipá-las e, mais importante, a moldar o futuro que desejamos.

O grande benefício dessa abordagem não é “adivinhar o futuro”, mas sim preparar as pessoas. Quando aplicamos as ferramentas do UN Strategic Foresight Guide, como o Backcasting, paramos de olhar para o que é provável e passamos a agir em direção ao que é necessário. Isso gera segurança para investir, resiliência para enfrentar imprevistos e uma visão clara de propósito para as instituições.

Saiba mais sobre Foresight para instituições privadas e públicas na W Futurismo ou no contato@wfuturismo.com

Autora:  Delma Moraes, Foresight Practitioner

Curadoria: Jaqueline Weigel, Futurista Global

 

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